COMO AJUDAR NOS PROCESSOS
DE LETRAMENTO E ALFABETIZAÇÃO: O PAPEL DA FAMÍLIA
Quando meu filho irá aprender a ler/escrever e como posso
ajudá-lo? Para a maioria das famílias, os processos de letramento e alfabetização
são recheados de dúvidas, ideias e questionamentos, principalmente, no que diz
respeito ao papel dos envolvidos e à cronologia dos mesmos, mas as respostas
para estas e outras questões dependerão de vários fatores.
Alguns pais acreditam que só devem se preocupar, a partir do
momento que seus filhos ingressam na classe de alfabetização, não validando e valorizando
os procedimentos que ocorrem muito antes. Já outros, querem antecipar ao máximo,
mas acabam pulando etapas importantes e que, muitas vezes, dependem de
maturidade cognitiva, psicomotora e emocional.
Alimentados por um conceito tradicional e, muitas vezes, apoiados
pelas próprias instituições que optam em carregar esse papel de exclusividade,
muitos entendem que a alfabetização só deve acontecer e ser de responsabilidade
da escola. Ledo engano dos que pensam assim! Este processo não é fácil e requer
muito trabalho e empenho, não só dos alunos e educadores, mas de todos os
envolvidos direta ou indiretamente. Ele engloba vários aspectos e faz parte de
um ciclo que se inicia muito, muito antes do Primeiro Ano.
Esta concepção “escolarizada” acaba por tirar ações que devem
ultrapassar os muros escolares e que se bem conduzidas por todos, podem
garantir momentos de grande satisfação, principalmente, para o aluno, afinal,
aprender e conviver com a leitura e escrita precisa ser, antes de mais nada,
muito prazeroso.
Para que isto ocorra, a participação da família é fundamental. É
muito importante que sejam propiciadas, no ambiente familiar, situações que
estimulem os atos de ler e escrever, independente das tarefas enviadas pela
escola, que, com certeza, não irão suprir esta demanda. Também é fundamental contextualizar e dar uma
função social a estes momentos, afinal, ninguém aprende a ler e escrever
somente para fazer tarefas escolares, certo?
O "exercício" da escrita e leitura faz-se, muitas
vezes, de forma não sistematizada, por isso a família tem um papel estratégico.
Como diz Emília Ferreiro:
”- Permite-se e
estimula-se que a criança tenha interação com a língua escrita nos mais
variados contextos."
Mas, como fazer parte deste processo e
de forma positiva, não sendo os pais profissionais da área? Muitas são as
possibilidades, mas é importante internalizar duas questões fundamentais:
1-
existem estágios diferentes de
apropriação do código, sendo necessário respeitá-los;
2- não se deve separar ou valorizar mais ou menos os atos de “ler” e “dar
sentido aos textos”, nomeando-se este conceito como “letramento”.
Vamos às dicas:
- seja modelo de escritor/leitor para seu filho. É muito rico quando
a criança pode observar, desde muito pequena, seus familiares lendo/escrevendo,
principalmente, quando estes demonstram que gostam dessas práticas e as dividem
com ela, como, por exemplo, mostrando uma dica cultural ou uma tirinha
engraçada no jornal que estão lendo;
- visite com a criança, com frequência, livrarias e bibliotecas e
a ajude a “exercitar”, desde cedo, a escolha de títulos. Busque conhecer suas
preferências literárias. Você poderá se surpreender...;
- se seu filho estiver em um nível mais avançado de leitura, sugira
e opte por apresentar textos e livros mais simples, curtos, de fácil
memorização e entendimento. Este é o momento da criança se sentir capaz e autônoma;
- convide seu filho a criar histórias junto com você e as coloque
no papel. Algumas vezes, seja o escriba (enquanto ele narra, você escreve).
Outras vezes, você cria a história e ele registra (ilustrando ou “escrevendo”);
- ao final da leitura de um livro literário, busque comentar
sua opinião e pergunte ao seu filho o que ele achou da história, que parte mais
gostou e se indicaria o título para outra pessoa. Torne esta dinâmica natural,
evitando fazer um questionário, levando em consideração que quando se lê com
intenção de entretenimento, não é comum ficar relatando quem é o personagem
principal, onde aconteceu a história, etc...;
- adquira brinquedos e jogos relacionados aos temas “letras/palavras”
e brinque muito com seu filho. Os meios eletrônicos são favoráveis para o enriquecimento
do processo, mas atenção, pois esta é
uma proposta, geralmente, individual e não tem nada mais produtivo do que trocar
olhares e emoções;
- busque situações para estimular a leitura/escrita que não sejam
somente através de histórias: escrever listas de supermercado e bilhetes/fazer
pesquisas em revistas/promover leituras incidentais (rótulos, embalagens e logos)/observar,
descrever e interpretar imagens e objetos/confeccionar agendas de telefone e
diários, etc;
- se a criança não demonstrar interesse pelo convite para vivenciar
situações de escrita/leitura, não desista. Busque outros momentos, insista, mas
sempre com bom senso e oportunizando um clima mais lúdico e prazeroso. Evite
cobranças desnecessárias;
- demonstre paciência e interesse pelo que a criança está “escrevendo”
e “lendo”. Mesmo que já tenha compreendido o sistema, ela precisa de tempo para
adquirir velocidade e ritmo;
- não torne os “erros” algo desestimulante. Quando a criança está
em processo de alfabetização, escrever convencionalmente é a última etapa. Se este
vem transcorrendo naturalmente e a criança não apresenta nenhum problema, omissões
e trocas de letras são naturais. Dependendo do momento em que ela se encontra,
pode ser apresentada a forma convencional de escrita, mas sempre lembrando de
valorizar o esforço e garantindo a ela que está indo bem;
- selecione horários e locais adequados para as tarefas de
casa. Mesmo motivadoras, elas não podem competir com a televisão, com o irmão
muito menor que mexe em tudo, com a hora do videogame, do desenho predileto ou
do playground, entre outros;
- encontre tempo e disponibilidade para acompanhar as tarefas
escolares de seu filho, mesmo se ele for muito pequeno e possa parecer algo
muito fácil ou pouco interessante;
- não deixe de fazer a
leitura dos livros enviados pela escola, pois esta é uma tarefa de casa. Mas lembre-se:
ler histórias para crianças é uma atividade que está intimamente relacionada a aconchego;
- mesmo que seu filho já tenha aprendido a ler, não deixe de
contar histórias para ele;
- percebendo que seu filho está com muita dificuldade, reveze
a escrita e a leitura com ele. Leia/escreva um trecho e ele outro. Faça-o se
sentir seguro em dividir suas dificuldades com você e procure levar esta questão
à escola, sem passar estresse à criança;
- respeite e direcione, de forma coerente e tranquila, o momento
de experimentação dos formatos das letras. Ao escrever, a criança costuma
testar e misturar alguns tipos de letras. Aos poucos, com intervenções e
sinalizações positivas e sentindo-se mais segura, ela irá definir o padrão de
letra;
- envie para a escola, sempre que possível, materiais que façam
parte do acervo literário de casa ou as produções feitas em família. Quando
socializados com os amigos, passam a ter ainda mais valor;
- não compare seu filho a outras crianças e nem o deixe perceber
que as “dificuldades” que ele vem apresentando preocupam e/ou mobilizam a
família. É importante lembrar que as crianças têm níveis de desenvolvimento
diferentes e que isto não é uma corrida e sim um processo;
- é fundamental que você busque a Escola e a Equipe
Pedagógica da instituição em que seu filho estuda, sempre que tiver dúvidas ou
questionamentos sobre o processo.
Por fim e o mais importante: aproveite, ao máximo, este “momento
mágico” e surpreendente da vida de seu filho, pois ele tende a passar muito
rápido. Você irá se emocionar!
(Rosa Maria de A. V.
Figueiredo - pedagoga e coordenadora pedagógica)