ENTENDENDO O CONVÍVIO SOCIAL
ESCOLAR
DIFÍCIL, MAS NÃO IMPOSSÍVEL!
Ter um filho frequentando diariamente a escola e,
às vezes, por um período estendido, não é uma tarefa fácil para a maioria dos
pais, principalmente, porque este é o primeiro e talvez venha ser o único
espaço em que os responsáveis são quase que literalmente “barrados”. Isto gera uma
certa insegurança, afinal, os rebentos não
estão mais sob sua supervisão e controle.
As dúvidas são inúmeras e as curiosidades também...
Dá vontade de estar lá dentro vendo e ouvindo tudo, não é mesmo? As perguntas
são quase que infinitas: O que será que fazem? O que será que dizem? Como se
comportam? Como são tratados? O que e como aprendem? Como os acalantam quando caem
e ralam o joelho ou cotovelo? ...
Há famílias que tendem a ser preocupar mais com os
assuntos pedagógicos, há as que focam nas relações e há as que se detêm mais
nas questões assistenciais. Estas diferentes focos e prioridades dependem de
muitos fatores, entre eles, a idade e maturidade do aluno, o conhecimento ou
não sobre as características da faixa etária, da turma, da proposta da escola
e, ainda, como se constituem as relações e papéis nas famílias.
Para alguns pais, a estada do filho na escola e
tudo que cerca esta questão tem um peso ainda maior a depender das histórias e
vivências pessoais. E quantas são estas histórias, não é mesmo? Mas, algumas vezes,
a Escola acaba se tornando a responsável por algo que pode não ter começado por
lá...
Como sempre orientamos, é a conduta e postura dos
familiares, diante de suas dúvidas e questionamentos sobre o espaço escolar e
as relações que se constituem nele, que fará toda a diferença na relação da
criança com este ambiente, com seus colegas e com sua aprendizagem.
Poderia enumerar aqui centenas de objetivos que
tornam fundamental a vivência e convivência escolar, mas talvez um dos mais
ricos e importantes, seja o de dar à criança a oportunidade de conviver com
diferentes pessoas, diferentes experiências e sem a influência e intervenção direta
dos pais.
É uma situação completamente diferente de quando
as crianças se encontram nos parques, na casa de um dos amigos, etc. Lançado a
oportunidade de aprender mais autonomamente, muitas vezes o aluno se mostra, na
escola, muito diferente do que ele é em sua casa e diante dos familiares. Como
mudam... Isso se dá porque não existe nada mais enriquecedor do que ser
confrontado com o que não é comum, com o desconhecido, pois esta condição
aumenta as conexões neurais e desenvolve o potencial cognitivo, social e
emocional dos pequenos e quanto mais cedo isto acontecer, melhores resultados
serão obtidos. É interagindo, desde pequeno, com o que é diferente e com o que desestabiliza
que o ser humano tem a possibilidade de elaborar hipóteses e resoluções e, assim,
aprender a viver e conviver de forma mais saudável e menos dependente, tanto
atitudinal como emocionalmente.
Porém, ser lançado dentro de um ambiente tão coletivo
e heterogênio
como a escola, acaba por fazer com que as crianças vejam, vivenciem,
mostrem interesse e até aprendam ações e temáticas que nem sempre estão de
acordo com os valores e ideais de seus familiares. Mas, diante desta condição, é
preciso ter muito cuidado com os julgamentos e com o radicalismo, afinal, não
necessariamente o que o outro pensa ou faz está errado. O que ele pensa ou faz,
na verdade, não condiz com a nossa filosofia, até porque não somos os donos das
verdades absolutas... Somos sim, diferentes!
Seguindo estes critérios, lanço a seguinte
questão: O que é certo ou errado? Dependerá do ponto de vista. Para algumas famílias,
por exemplo, dar um “tapinha no bumbum” é sinal de desrespeito ou agressão com
o outro. Já para outras famílias, é algo comum em suas casas, pois é uma
expressão de carinho e de brincadeira entre os familiares e a criança.
Agora, imaginem esta cena dentro da escola: alguns
alunos achando graça deste ato e outros vendo como algo agressivo. Não tenho a
mínima dúvida de que muitos alunos chegarão em casa contando diferentes versões
para o mesmo episódio. Mas garanto que a situação terá maior ou menor peso, a
depender da maneira que os adultos receberem os fatos.
Lanço outras questões: no nosso dia a dia só
convivemos com quem nos identificamos? Será que todos os nossos colegas de
trabalho, faculdade, clube, igreja, parquinho e praia são exatamente aquelas
pessoas com quem gostaríamos de estar? Será que eles só fazem o que exatamente gostamos
e apoiamos? Possivelmente não. Mas precisamos nos relacionar com estas pessoas,
que têm outras ideias, opiniões, posturas e ações, porque assim se faz necessário.
Porém, isto não muda nossas convicções e modos de vida, certo?
E por que na escola teria que ser diferente? Como
a instituição se posiciona diante desta questão e diante de tantas pessoas, opiniões
e ideais diferentes?
Costumo usar uma frase que ouvi durante um dos
cursos do psicanalista Cesar Ibrahim: “A família deixa o filho e a escola
recebe o aluno”.
Ainda que seja um ambiente com uma proposta acalantadora,
com um olhar mais individualizado, fica difícil, quase impossível, atender as
demandas de todas as famílias e não é este o papel da escola, porque se não ela
deixa de ser um espaço coletivo, heterogêneo e, principalmente, de educação.
A escola, geralmente, se posiciona como um ESPAÇO
NEUTRO, instituindo seu próprio regulamento e condutas diante dos diferentes
comportamentos e posturas, dos alunos e dos pais.
Não é uma tarefa fácil, pois estamos falando de crianças
e adultos que vivenciam e tratam a questão da relação com o outro e da
autoridade de inúmeras formas em seus ambientes familiares: há os que batem e apanham,
há os que conversam e os que gritam, há os que dão e têm liberdade total, etc. A
Escola não bate, não grita e tão pouco é permissiva... Por isto, ela precisa
ser neutra.
Mas por incrível que possa parecer, “agir de
maneira neutra” funciona e é muito saudável, pois isto gera, na maioria das crianças,
uma sensação de conforto e segurança, pois é afirmado a elas o que podem e o
que não podem fazer naquele espaço, que não é o da sua casa. Isto se torna
positivo porque, na maioria das vezes, foram regras e combinados construídos pelos
próprios alunos, que todo o grupo elaborou junto e, por este motivo, TODOS precisam
respeitar. Os alunos reconhecem e legitimam os combinados instituídos por eles mesmos.
Uns mais, outros menos e a equipe está lá para mediar estas “respostas”.
Mas como crianças que são, elas estão sempre experimentando,
testando e no que experimentam e testam, repetem e aprendem. Isto faz parte do
desenvolvimento de todo ser humano. Quando isto acontecer, a escola e os
adultos que nela se encontram saberão dar os limites e conduzir de uma forma
que seja bom para todos, desde que os familiares apoiem e respeitem o que foi
instituído.
Mas, e o que fazer quando os filhos chegam em casa
falando ou fazendo coisas que os pais não concordam? Ou quando chegam se
queixando de um ou outro colega?
Primeiramente, é preciso acalantar e dar espaço
para que eles se expressem. Eles querem falar, mostrar, eles querem chamar a atenção...
Mas é preciso se fazer a seguinte pergunta: será que estou realmente ouvindo meu
filho ou tenho exigido depoimentos sobre
o seu dia na escola, priorizando os relatos e informações sobre o que não foi
tão bom? É importante lembrar que diálogo não é interrogatório. E também é
importante lembrar que, dependendo da idade, a criança se vê obrigada a dar
respostas, mesmo que elas não existam.
É preciso que se tenha em mente que, dependendo das
reações dos adultos, da forma que recebem as informações e de como as repassam,
o assunto poderá ter um peso maior ou menor e poderá ter ou não continuidade. É
muito comum ouvir relatos de alunos que dizem ter “ouvido” seus pais falando de
tal assunto no telefone ou no carro... Todo cuidado é pouco!
É fundamental que a criança não perceba que o fato
que narrou ou a atitude que tomou, desestruturou ou chamou muito a atenção dos responsáveis,
pois, do contrário, elas se darão conta de que aquele assunto, aquele colega ou
postura, gerou interesse e atenção dos pais. Neste caso, possivelmente, ela
trará novamente a questão. Temos visto narrativas de situações que aconteceram há
dias, meses e até anos atrás, mas que o aluno retoma por algum motivo, até
porque, dependendo da idade, o tempo é relativo e o “ontem” muitas vezes se
torna o “hoje”...
Toda criança precisa saber o que se espera delas.
Ela precisa saber o que o adulto pensa sobre os assuntos que chegam através
dela e se aquilo condiz ou não com a prática da família. É preciso conversar e
explicar. É preciso ter tempo para o “diálogo” e, mais uma vez: diálogo não é
interrogatório...
Também é necessário validar as ideias e opiniões dos
pais, principalmente, sendo eles exemplos para seus filhos. Esta história de
que “eu faço porque sou adulto”, nem sempre funciona com criança. O que
funciona mesmo é mostrarmos com nossas atitudes, como somos, pois eles nos têm
como seus maiores exemplos de vida.
Por último e, talvez, o mais importante, é que os
familiares vejam a escola de seus filhos como uma parceira e aliada, afinal, as
crianças passam uma boa parte do seu dia neste espaço. É preciso respeitar as diretrizes
e posicionamentos “neutros” da mesma. É preciso respeitar as condutas da escola
e da equipe, ainda que existam dúvidas e questionamentos. Nestes casos, procurem
o espaço escolar que vocês escolheram para seus filhos.
Para finalizar, vale lembrar que “ser neutro” não
significa que a escola é imparcial. Ela está atenta, está aberta ao diálogo e
tomará medidas que atendam a TODOS.
Então, vamos ajudar nossos filhos a conviverem
mais e melhor?
Rosa Maria
de Almeida Vaz Figueiredo
Coordenadora,
Pedagoga e Psicopedagoga
DIFÍCIL, MAS NÃO IMPOSSÍVEL!