sábado, 19 de abril de 2014

ENTENDENDO O CONVÍVIO SOCIAL ESCOLAR
DIFÍCIL, MAS NÃO IMPOSSÍVEL!

Ter um filho frequentando diariamente a escola e, às vezes, por um período estendido, não é uma tarefa fácil para a maioria dos pais, principalmente, porque este é o primeiro e talvez venha ser o único espaço em que os responsáveis são quase que literalmente “barrados”. Isto gera uma certa insegurança, afinal,  os rebentos não estão mais sob sua supervisão e controle.
As dúvidas são inúmeras e as curiosidades também... Dá vontade de estar lá dentro vendo e ouvindo tudo, não é mesmo? As perguntas são quase que infinitas: O que será que fazem? O que será que dizem? Como se comportam? Como são tratados? O que e como aprendem? Como os acalantam quando caem e ralam o joelho ou cotovelo? ...
Há famílias que tendem a ser preocupar mais com os assuntos pedagógicos, há as que focam nas relações e há as que se detêm mais nas questões assistenciais. Estas diferentes focos e prioridades dependem de muitos fatores, entre eles, a idade e maturidade do aluno, o conhecimento ou não sobre as características da faixa etária, da turma, da proposta da escola e, ainda, como se constituem as relações e papéis nas famílias.
Para alguns pais, a estada do filho na escola e tudo que cerca esta questão tem um peso ainda maior a depender das histórias e vivências pessoais. E quantas são estas histórias, não é mesmo? Mas, algumas vezes, a Escola acaba se tornando a responsável por algo que pode não ter começado por lá...
Como sempre orientamos, é a conduta e postura dos familiares, diante de suas dúvidas e questionamentos sobre o espaço escolar e as relações que se constituem nele, que fará toda a diferença na relação da criança com este ambiente, com seus colegas e com sua aprendizagem.
Poderia enumerar aqui centenas de objetivos que tornam fundamental a vivência e convivência escolar, mas talvez um dos mais ricos e importantes, seja o de dar à criança a oportunidade de conviver com diferentes pessoas, diferentes experiências e sem a influência e intervenção direta dos pais.
É uma situação completamente diferente de quando as crianças se encontram nos parques, na casa de um dos amigos, etc. Lançado a oportunidade de aprender mais autonomamente, muitas vezes o aluno se mostra, na escola, muito diferente do que ele é em sua casa e diante dos familiares. Como mudam... Isso se dá porque não existe nada mais enriquecedor do que ser confrontado com o que não é comum, com o desconhecido, pois esta condição aumenta as conexões neurais e desenvolve o potencial cognitivo, social e emocional dos pequenos e quanto mais cedo isto acontecer, melhores resultados serão obtidos. É interagindo, desde pequeno, com o que é diferente e com o que desestabiliza que o ser humano tem a possibilidade de elaborar hipóteses e resoluções e, assim, aprender a viver e conviver de forma mais saudável e menos dependente, tanto atitudinal como emocionalmente.
Porém, ser lançado dentro de um ambiente tão coletivo e heterogênio como a escola, acaba por fazer com que as crianças vejam, vivenciem, mostrem interesse e até aprendam ações e temáticas que nem sempre estão de acordo com os valores e ideais de seus familiares. Mas, diante desta condição, é preciso ter muito cuidado com os julgamentos e com o radicalismo, afinal, não necessariamente o que o outro pensa ou faz está errado. O que ele pensa ou faz, na verdade, não condiz com a nossa filosofia, até porque não somos os donos das verdades absolutas... Somos sim, diferentes!
Seguindo estes critérios, lanço a seguinte questão: O que é certo ou errado? Dependerá do ponto de vista. Para algumas famílias, por exemplo, dar um “tapinha no bumbum” é sinal de desrespeito ou agressão com o outro. Já para outras famílias, é algo comum em suas casas, pois é uma expressão de carinho e de brincadeira entre os familiares e a criança.
Agora, imaginem esta cena dentro da escola: alguns alunos achando graça deste ato e outros vendo como algo agressivo. Não tenho a mínima dúvida de que muitos alunos chegarão em casa contando diferentes versões para o mesmo episódio. Mas garanto que a situação terá maior ou menor peso, a depender da maneira que os adultos receberem os fatos.
Lanço outras questões: no nosso dia a dia só convivemos com quem nos identificamos? Será que todos os nossos colegas de trabalho, faculdade, clube, igreja, parquinho e praia são exatamente aquelas pessoas com quem gostaríamos de estar? Será que eles só fazem o que exatamente gostamos e apoiamos? Possivelmente não. Mas precisamos nos relacionar com estas pessoas, que têm outras ideias, opiniões, posturas e ações, porque assim se faz necessário. Porém, isto não muda nossas convicções e modos de vida, certo?
E por que na escola teria que ser diferente? Como a instituição se posiciona diante desta questão e diante de tantas pessoas, opiniões e ideais diferentes?
Costumo usar uma frase que ouvi durante um dos cursos do psicanalista Cesar Ibrahim: “A família deixa o filho e a escola recebe o aluno”.
Ainda que seja um ambiente com uma proposta acalantadora, com um olhar mais individualizado, fica difícil, quase impossível, atender as demandas de todas as famílias e não é este o papel da escola, porque se não ela deixa de ser um espaço coletivo, heterogêneo e, principalmente, de educação.
A escola, geralmente, se posiciona como um ESPAÇO NEUTRO, instituindo seu próprio regulamento e condutas diante dos diferentes comportamentos e posturas, dos alunos e dos pais.
Não é uma tarefa fácil, pois estamos falando de crianças e adultos que vivenciam e tratam a questão da relação com o outro e da autoridade de inúmeras formas em seus ambientes familiares: há os que batem e apanham, há os que conversam e os que gritam, há os que dão e têm liberdade total, etc. A Escola não bate, não grita e tão pouco é permissiva... Por isto, ela precisa ser neutra.
Mas por incrível que possa parecer, “agir de maneira neutra” funciona e é muito saudável, pois isto gera, na maioria das crianças, uma sensação de conforto e segurança, pois é afirmado a elas o que podem e o que não podem fazer naquele espaço, que não é o da sua casa. Isto se torna positivo porque, na maioria das vezes, foram regras e combinados construídos pelos próprios alunos, que todo o grupo elaborou junto e, por este motivo, TODOS precisam respeitar. Os alunos reconhecem e legitimam os combinados instituídos por eles mesmos. Uns mais, outros menos e a equipe está lá para mediar estas “respostas”.
Mas como crianças que são, elas estão sempre experimentando, testando e no que experimentam e testam, repetem e aprendem. Isto faz parte do desenvolvimento de todo ser humano. Quando isto acontecer, a escola e os adultos que nela se encontram saberão dar os limites e conduzir de uma forma que seja bom para todos, desde que os familiares apoiem e respeitem o que foi instituído.
Mas, e o que fazer quando os filhos chegam em casa falando ou fazendo coisas que os pais não concordam? Ou quando chegam se queixando de um ou outro colega?
Primeiramente, é preciso acalantar e dar espaço para que eles se expressem. Eles querem falar, mostrar, eles querem chamar a atenção... Mas é preciso se fazer a seguinte pergunta: será que estou realmente ouvindo meu filho ou tenho  exigido depoimentos sobre o seu dia na escola, priorizando os relatos e informações sobre o que não foi tão bom? É importante lembrar que diálogo não é interrogatório. E também é importante lembrar que, dependendo da idade, a criança se vê obrigada a dar respostas, mesmo que elas não existam.
É preciso que se tenha em mente que, dependendo das reações dos adultos, da forma que recebem as informações e de como as repassam, o assunto poderá ter um peso maior ou menor e poderá ter ou não continuidade. É muito comum ouvir relatos de alunos que dizem ter “ouvido” seus pais falando de tal assunto no telefone ou no carro... Todo cuidado é pouco!
É fundamental que a criança não perceba que o fato que narrou ou a atitude que tomou, desestruturou ou chamou muito a atenção dos responsáveis, pois, do contrário, elas se darão conta de que aquele assunto, aquele colega ou postura, gerou interesse e atenção dos pais. Neste caso, possivelmente, ela trará novamente a questão. Temos visto narrativas de situações que aconteceram há dias, meses e até anos atrás, mas que o aluno retoma por algum motivo, até porque, dependendo da idade, o tempo é relativo e o “ontem” muitas vezes se torna o “hoje”...
Toda criança precisa saber o que se espera delas. Ela precisa saber o que o adulto pensa sobre os assuntos que chegam através dela e se aquilo condiz ou não com a prática da família. É preciso conversar e explicar. É preciso ter tempo para o “diálogo” e, mais uma vez: diálogo não é interrogatório...
Também é necessário validar as ideias e opiniões dos pais, principalmente, sendo eles exemplos para seus filhos. Esta história de que “eu faço porque sou adulto”, nem sempre funciona com criança. O que funciona mesmo é mostrarmos com nossas atitudes, como somos, pois eles nos têm como seus maiores exemplos de vida.
Por último e, talvez, o mais importante, é que os familiares vejam a escola de seus filhos como uma parceira e aliada, afinal, as crianças passam uma boa parte do seu dia neste espaço. É preciso respeitar as diretrizes e posicionamentos “neutros” da mesma. É preciso respeitar as condutas da escola e da equipe, ainda que existam dúvidas e questionamentos. Nestes casos, procurem o espaço escolar que vocês escolheram para seus filhos.
Para finalizar, vale lembrar que “ser neutro” não significa que a escola é imparcial. Ela está atenta, está aberta ao diálogo e tomará medidas que atendam a TODOS.
Então, vamos ajudar nossos filhos a conviverem mais e melhor?

Rosa Maria de Almeida Vaz Figueiredo
Coordenadora, Pedagoga e Psicopedagoga